
Os criadores da tão comentada minissérie “Adolescência”, da Netflix — Jack Thorne e Stephen Graham — se desafiaram a responder uma questão complexa. Após acompanhar inúmeros casos de ataques a escolas e a estudantes que ocorrem anualmente na Grã-Bretanha, eles se perguntaram: quem são os responsáveis? Recorreram, portanto, à arte como ferramenta para uma tentativa de busca por respostas.
Esse problema de saúde pública não é exclusivo da Grã-Bretanha. No Brasil, temos testemunhado casos alarmantes de ataques a escolas, professores e colegas, com um pico notável em 2023. Da mesma forma, notícias como essas surgem com frequência alarmante nos Estados Unidos, um dos países que mais influenciam a cultura brasileira.
É urgente que, assim como Thorne e Graham, os pais, profissionais da educação, da saúde mental, a sociedade e os políticos se empenhem em responder à mesma pergunta.
Quem são os responsáveis?
Ao assistir “Adolescência”, entendemos que existem muitas camadas na tentativa de encontrar respostas.
Essas camadas são representadas ao longo dos 4 episódios da minissérie.
O primeiro episódio mostra o papel do aparato público, mais especificamente da polícia, na resolução de casos como o de Jamie, com nítido despreparo.
O segundo episódio dedica-se a analisar o ambiente escolar, com o tão presente bullying, a dificuldade dos professores e diretores em educar e lidar com os jovens e as dificuldades dos próprios adolescentes com suas emoções e comportamentos. Nesse cenário, alguns, como o filho do policial, podem implodir. Outros, como Jade, Ryan e o próprio Jamie, explodem.
No terceiro episódio, acompanhamos a entrevista da psicóloga com o adolescente Jamie, que nos permite refletir sobre aspectos individuais do jovem responsável pelo crime. O ator Owen Cooper nos deixa boquiabertos com sua atuação, demonstrando uma intensa desregulação emocional, dificuldade em controlar os impulsos agressivos e como ele se torna ameaçador ao sentir-se ameaçado pela presença de uma mulher em posição de superioridade a ele.
Fez-me lembrar da famosa frase de Simone de Beauvoir: “Ninguém é mais arrogante em relação às mulheres, mais agressivo ou desdenhoso, do que o homem que duvida de sua virilidade”.
O quarto e último episódio se ocupa em ilustrar o ambiente familiar e dos pais, em entender que ao mesmo tempo que os pais são responsáveis, eles não são culpados — até porque é impossível culpar um só agente por um problema tão multifacetado.
Entretanto, há uma camada que permeia todos os episódios e se revela como a mais crucial: a influência da internet e das redes sociais.
De que maneira os pais, os professores ou mesmo os agentes de segurança poderão proteger um adolescente do risco que está presente dentro do seu próprio quarto e acessível 24 horas na palma da sua mão?
Numa das últimas cenas, vemos o pai de Jamie lidando com suas próprias dificuldades emocionais e tentando entender como o filho seguiu uma trajetória tão diferente da sua, apesar de não ter sido violento com ele, como seu próprio pai foi com ele no passado.
Essa fala me faz lembrar de um discurso tão comum à geração atual de adultos que é: “eu passei por tudo isso e sobrevivi” — numa tentativa de dizer que os adolescentes de hoje são muito frágeis e vulneráveis.
No entanto, esses adultos não estiveram expostos aos impactos das redes sociais como os adolescentes de hoje, o que torna essa comparação não apenas injusta, mas também impraticável para compreender os problemas da geração atual.
Portanto, o apelo de “Adolescência” por um maior compromisso com a saúde mental dos adolescentes é essencial para o futuro da nossa sociedade e para a prevenção de violência. Que todos nós possamos nos envolver ativamente nessa causa.
Fernanda Sartori.
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